Há uma virtude da qual se fala pouco em nossos dias, mas que foi considerada indispensável por gerações inteiras de católicos: a prudência.
A prudência é a capacidade de enxergar a realidade como ela é e agir de acordo com ela.
Nos tempos antigos, as mães ensinavam essa virtude às filhas desde cedo. As avós ensinavam-na às netas. As religiosas ensinavam-na às moças que frequentavam os conventos e colégios católicos. Era uma sabedoria adquirida ao longo dos séculos e baseada numa profunda compreensão da natureza humana.
Hoje, porém, vivemos numa sociedade que procura convencer homens e mulheres de que não existe perigo algum nas relações excessivamente informais, nas amizades sem limites, nas conversas intermináveis, nas intimidades desnecessárias e na constante exposição da vida pessoal.
Mas a realidade é outra.
A Igreja sempre ensinou que o mundo está marcado pelo pecado original. O homem e a mulher carregam em si inclinações desordenadas que precisam ser governadas pela razão e pela graça de Deus. Além disso, existe uma batalha espiritual permanente. O demônio não descansa. Seu objetivo continua sendo o mesmo desde o princípio: perder as almas.
Por isso, o cristão prudente nunca olha para a vida apenas com olhos humanos. Ele sabe que por trás de muitas situações aparentemente inocentes pode existir uma tentação cuidadosamente preparada para conduzir alguém ao pecado.
A mulher cristã precisa compreender essa realidade.
Seria imprudente ignorar que muitos homens vivem imersos numa cultura profundamente marcada pela impureza.
Durante décadas, filmes, novelas, músicas, propagandas, revistas, redes sociais e, sobretudo, a pornografia ensinaram gerações inteiras a enxergar o sexo como um divertimento sem consequências morais. O resultado está diante de nossos olhos: adultérios, assédios, abusos, famílias destruídas e uma crescente incapacidade de enxergar o próximo como filho ou filha de Deus.
Muitos homens já não foram educados para respeitar os limites que antigamente eram considerados naturais. Não poucos acreditam que toda mulher está potencialmente disponível. Um sorriso é interpretado como interesse. Uma conversa educada é tomada como abertura para algo mais. Uma simples gentileza pode ser transformada, pela imaginação e pela tentação, em fantasias completamente afastadas da realidade.
A mulher prudente sabe disso porque conhece a condição humana.
Ela sabe que somente Deus vê os corações. Sabe que não pode adivinhar as intenções de quem está diante dela. Sabe que qualquer pessoa pode ser tentada. Sabe que até mesmo pessoas aparentemente corretas podem travar batalhas interiores desconhecidas dos demais.
Por isso, conserva uma reserva digna.
As gerações passadas compreendiam muito bem essa verdade. Era comum ver mulheres que tratavam os homens com educação, respeito e cortesia, mas sem excessiva familiaridade., com distância. Falavam o necessário. Tratavam dos assuntos necessários. Mantinham uma postura que inspirava respeito.
Não era frieza.
Não era arrogância.
Era prudência.
Elas compreendiam que nem toda conversa precisa ser prolongada. Nem toda amizade precisa ser aprofundada. Nem toda simpatia precisa transformar-se em intimidade.
A sociedade moderna chama isso de distância.
A sabedoria cristã chama isso de proteção:
- Proteção da alma.
- Proteção da reputação.
- Proteção do matrimônio.
- Proteção da paz interior.
- Proteção contra tentações desnecessárias.
Nosso Senhor ensinou que o pecado começa no coração. Antes do ato exterior existe o pensamento. Antes da queda existe a imaginação. Antes do escândalo existe a ocasião.
É precisamente por isso que a prudência possui tanto valor diante de Deus.
O cristão não deve apenas evitar o pecado. Deve evitar também as ocasiões que normalmente conduzem ao pecado.
Essa obrigação vale tanto para os homens quanto para as mulheres.
O homem católico deve vigiar seus olhos, seus pensamentos e suas intenções.
A mulher católica deve vigiar sua conduta, suas amizades e as situações em que se coloca.
Ambos devem recordar que o grande inimigo é o demônio, que procura explorar as fraquezas de cada um para conduzir ambos à queda.
Nos tempos em que vivemos, essa vigilância tornou-se ainda mais necessária. Quanto mais a sociedade abandona Deus, mais desaparecem os freios morais que durante séculos ajudaram a conter as paixões humanas.
Por isso, a mulher cristã não deve moldar seu comportamento pelos costumes do mundo moderno, mas pela sabedoria perene da Igreja.
Ela pode ser amável sem ser acessível.
Pode ser educada sem ser íntima.
Pode ser cordial sem abrir espaço para ambiguidades.
Pode ser caridosa sem abandonar a prudência.
A verdadeira mulher cristã não procura chamar atenção para si. Não busca validação masculina. Não mede seu valor pela quantidade de olhares que atrai.
Sua dignidade vem de Deus.
Sua força vem de Deus.
Sua prudência vem de Deus.
E justamente por isso ela caminha pelo mundo com os olhos abertos, a alma vigilante e o coração voltado para o Céu, lembrando-se das palavras do Apóstolo: "Aquele que julga estar de pé, cuide para não cair."
Porque nos dias atuais, mais do que nunca, a prudência continua sendo uma das maiores guardiãs da pureza, da paz e da salvação das almas.
Prof. Emílio Carlos
Pároco Leigo da Paróquia Sagrada Face de Tours
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